“Vai pra rua, se joga no real”: Maria Homem provoca juventude no FestJuv a viver para além das telas

Encontro partiu de uma pergunta: o que significa ser jovem em um mundo com excesso de informação, crises e transformações aceleradas?

"Vai pra rua, se joga no real": Maria Homem provoca juventude no FestJuv a viver para além das telas

“Vai pra rua, se joga no real.” Mais do que um conselho, foi um chamado direto. Assim, a psicanalista Maria Homem conduziu a palestra “Jovens à deriva: as juventudes em face ao mundo contemporâneo”, realizada nesta sexta-feira (27), no Teatro Glauce Rocha, durante a segunda noite do Festival da Juventude (FestJuv).

Com o auditório tomado por jovens, o encontro mediado pela jornalista Débora Alves partiu de uma pergunta central: o que significa ser jovem em um mundo atravessado por excesso de informação, crises permanentes e transformações aceleradas?

Ao longo do bate papo, Maria Homem desenhou um retrato potente das juventudes contemporâneas, marcadas por angústias, deslocamentos e incertezas, mas também por possibilidades de reinvenção.

“A gente é bicho”, afirmou, ao convidar o público a experimentar algo simples — e cada vez mais raro: o contato. “A gente está perdendo uma coisa tão sofisticada que é o olho no olho, o sentir o outro, a pele, o cheiro, o contato.” Para ela, o excesso de tempo nas telas aprisiona as pessoas no campo do imaginário, afastando-o da experiência concreta da vida. “A vida só acontece quando a gente se coloca nela.”

A ideia de “deriva”, que dá nome à palestra, foi apresentada como uma condição inevitável da existência. Segundo a psicanalista, todos estão à deriva do outro, do inconsciente e das próprias origens — família, religião, classe social etc. Soma-se a isso a deriva da incerteza, diante de um futuro cada vez mais imprevisível, volátil. No entanto, ela alerta que “isso não significa entregar a própria vida ao acaso. É preciso assumir responsabilidade sobre os próprios caminhos.”

À vontade com a plateia, Maria aproveitou o encontro para dar um spoiler de seu mais novo livro, previsto para ser lançado em maio deste ano. O título, inclusive, soa como um chamado: “Procura-se uma nova liderança para um novo tempo”. Em tom provocativo, a estudiosa afirmou ter a impressão de que “o mundo está derretendo”, atravessado por guerras, polarizações, violências e crises de valores. Ainda assim, propôs um exercício de imaginação: o que pode surgir depois desse cenário de ruptura?

A partir dessa reflexão, ela lançou uma provocação direta ao público jovem. “Se o mundo atravessa uma transição e busca novos caminhos, quem serão as novas lideranças capazes de construir esse futuro?” Como em um cartaz de faroeste, a pergunta ecoou pelo teatro: seria a juventude essa liderança que o mundo procura?

Outro ponto central da fala foi a relação dos jovens com validação e reconhecimento a partir dos likes e algoritmos. Em uma crítica direta à lógica das redes sociais, Maria afirmou que o excesso de dependência do olhar do outro pode afastar o sujeito de si mesmo. “Puxa o desejo de volta pra você. Você não precisa ser escravo do desejo do outro”, disse. E completou, “não é necessário ser amado por todos.”

A psicanalista também defendeu a importância da pausa em um tempo marcado pela urgência. “A pausa é ética”, afirmou, ao explicar que não há transformação sem tempo de elaboração. Para ela, parar é condição para que o jovem compreenda sua própria história, se desprenda de expectativas herdadas e construa novos sentidos. “Até para o sistema nervoso mudar uma sinapse é preciso de tempo.”

Temas como família, construção de identidade, o complexo de Édipo e as tensões contemporâneas em torno de gênero também atravessaram o encontro. Maria chamou atenção para os riscos do crescimento de discursos misóginos e de ideologias que capturam jovens, especialmente meninos, oferecendo respostas simplificadas para questões complexas. “O ódio ao feminino não prejudica só as mulheres, isso também fragiliza os homens.” Segundo ela, esses movimentos não apenas atingem as mulheres, principais vítimas da misoginia e do feminicídio, mas também impactam a forma como os jovens constroem suas identidades.

Com a presença ativa da plateia, que participou com perguntas ao final, o encontro manteve um tom direto, por vezes descontraído, mas sempre provocativo. Entre reflexões densas e exemplos do cotidiano, Maria Homem não ofereceu respostas prontas, mas abriu caminhos de pensamento e inquietação.

A palestra integrou a programação do segundo dia do Festival da Juventude, que contou ainda com outras atividades como a oficina de cinema com Joel Pizzini, o Fórum das Juventudes, a apresentação teatral “O Amigo Fiel”, do Grupo Sobrevento (SP), e o show Quintal do Caramelo.

"Vai pra rua, se joga no real": Maria Homem provoca juventude no FestJuv a viver para além das telas

Festival

A programação do FestJuv segue até este sábado (28), com atividades durante todo o dia com o  show de Chico Chico de encerramento às 21h30, no Palco Livre – estacionamento do Teatro Glauce Rocha, na UFMS, em Campo Grande. Todas as atividades são gratuitas.

A programação completa está disponível aqui e nas redes sociais (@festivaldajuventudems).

O Festival da Juventude é uma realização do Instituto Curumins, em parceria com a UFMS e o Ministério da Cultura, por meio de emenda parlamentar do deputado federal Vander Loubet, além do apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Fundo Nacional de Cultura e do Governo Federal. Conta ainda com o apoio da Secretaria de Estado da Cidadania, Subsecretaria da Juventude, Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura, Secretaria de Estado da Educação, Fundação de Cultura de MS, Educativa MS, Governo do Estado, da senadora Soraya Thronicke, da deputada federal Camila Jara e da Águas Guariroba.

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